Kata
Kata significa “forma”. Trata-se de um conjunto de técnicas de ataque e defesa dispostas segundo um plano, chamado embusen, em que o praticante se defronta com vários adversários imaginários começando e terminando o “combate” no mesmo ponto desse plano. Os kata começam geralmente por uma defesa, salientando assim o carácter não ofensivo do Karate-Dô. Um dos vinte princípios que o fundador do Karate moderno, Gishin Funakoshi, nos legou, e talvez o mais conhecido de todos, estando mesmo escrito no seu mausoléu, diz “Karate ni sente nashi” (Em Karate não existe primeiro ataque).

Os kata que se praticam actualmente têm uma finalidade nitidamente educativa,[1] em que o treino físico se alia a uma certa estética do movimento (há quem lhes chame “dança ou bailado guerreiro) e em que existe uma componente mental que é única no conjunto das várias modalidades de educação física e desporto. Há quem compare este último aspecto a um yoga em movimento, ou a uma meditação activa, cujos benefícios anti-stress são comprovados.

Até pouco depois do final da 2ª Guerra Mundial, a prática do Karate baseava-se fundamentalmente no treino de kata e formas de combate básico. Só posteriormente, algumas escolas começaram a praticar combate com vista à competição.

Isto aconteceu porque essas escolas, na ânsia de exportarem o Karate para os países ocidentais, tinham verificado que a competição, os campeonatos, as medalhas, tinham mais aceitação nesses povos, como o comprovava o caso do Jûdô, do que o modo tradicional de ensino e de prática das artes marciais japonesas, mais viradas para o aperfeiçoamento do carácter dos praticantes.

O kata, devido à diversidade dos movimentos que o compõem, constitui, por si só, um método de treino corporal completo, desenvolvendo a força e a tonicidade muscular, a velocidade do movimento, a elasticidade, o equilíbrio e a capacidade de respirar correctamente.

Ao executar as técnicas, e depois de o desenho do embusen estar já interiorizado, o praticante vai sendo, pouco a pouco, capaz de imaginar os seus “adversários” e as defesas e ataques que troca com eles. Isto conduz a um estado de concentração mental, idêntico àquele que se procura atingir na prática de meditação: estado de consciência em que o tropel de ideias e pensamentos, que são a constante do dia a dia da nossa mente, vai desaparecendo, permitindo-lhe voltar-se para dentro de si própria e tornar-se progressivamente calma, serena e, ao mesmo tempo, desperta.

O objectivo da execução do kata é unir a eficácia à pureza técnica. Assim, as técnicas devem ser feitas com velocidade e energia, a postura e o olhar devem transmitir a sensação de combate, mas aliados à perfeição técnica, ao respeito pela forma. Como em todas as artes japonesas, o suficiente é inimigo do bom, não basta fazer uma coisa aproximada, é necessário trabalhar para adquirir uma forma perfeitamente correcta. No rigor que se deve pôr na observância destes dois princípios reside a principal dificuldade a vencer que é, ao mesmo tempo, o aspecto mais aliciante deste exercício.

No Shôtôkai existem 19 kata obrigatórios, embora se possam praticar outros. Gichin Funakoshi escolheu-os de entre as duas escolas que predominavam em Okinawa: Shôrei-ryû (ryû = escola), cujos kata contêm posições mais estáticas, com movimentos destinados a desenvolver a força física, e Shôrin-ryû, cujos movimentos são mais rápidos e fluidos, visando o desenvolvimento da agilidade corporal.

Shôrin é a pronúncia japonesa de Shaolin, que era o nome do templo onde Bodhidharma (vd. Secção “Karate-Dô”) começou a ensinar, na China. A língua de Okinawa era um dialecto do japonês, em que o “r” e o “l” não se distinguem.

O Mestre K. Tokitsu, no seu livro “Histoire du Karate-Dô”, Editions SEM, avança a hipótese de os termos Shôrin e Shôrei terem a mesma origem, correspondendo a pronúncias diferentes, em tempos diferentes, da palavra Shaolin. Tendo este templo,   dos finais do séc. V, sido destruído, a denominação proliferou, em diversas épocas e lugares, sofrendo as artes que aí se praticavam influências diversas.

[1] - Os kata que hoje se praticam têm uma sequência e uma significação técnica pouco “realista”, em termos de interpretação do combate (oyo-bunkai), diferindo, nesse aspecto, dos originais. Esta modificação deve-se ao Mestre Ankô Itosu, de quem G. Funakoshi foi discípulo, que os adaptou, de modo a salientar os aspectos educativos e formativos, quando se decidiu, no princípio do séc. xx, introduzir o Karate nas escolas de Okinawa, como disciplina de educação física.
Nihon Karate Do Shoto Kai
(Membro oficial)


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Tetsuji Murakami
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