Kumite
Kumite significa “aproximar, juntar, cruzar as mãos (em combate)” e é o nome de uma parte do treino em que o praticante “põe à prova” as técnicas de ataque e defesa que aprendeu no kihon.

Existem diversas formas de kumite, adaptadas ao grau de evolução do praticante, que vão desde as mais simples e formais, destinadas aos principiantes, às mais complexas.

Ippon kumite

O ippon kumite (kumite de um só ataque) é o primeiro a ser aprendido, em que o atacante (Tsuki-te) anuncia o nome do ataque e o nível a que é feito (jôdan=nível alto, chûdan=médio e gedan=baixo) e o que recebe o ataque (Uke-te) tenta defendê-lo e contra-atacar (controlando o impacto). O facto de ser o primeiro tipo de kumite a ser estudado não quer dizer que não seja praticado por todas as graduações, porque o grau de dificuldade aumenta à medida que sobe a graduação.

Neste treino, o atacante assume uma posição básica de combate chamada zenkutsu~dachi (perna dobrada à frente), enquanto o que defende se mantém numa posição natural, shizentai, (shizen=natureza, natural e tai=corpo), em pé, pernas afastadas uma largura de ancas. Tsuki-te anuncia o nome e o nível do ataque e Uke-te defende e contra-ataca.

Sanbon-kumite


Sanbon-kumite (sanbon=três vezes) é outra forma de kumite básico em que Uke-te defende três ataques em linha, contra-atacando no último. Nesta forma de kumite, o praticante desenvolve a noção de distância e de “timing” (maai), (um dos aspectos mais importantes em combate), e, naturalmente, existem graus de dificuldade adaptados às respectivas graduações, com algumas alterações na forma do ataque e da defesa.

Jyû-ippon kumite

Jyû (livre) indica que, nesta forma de ippon-kumite (um só ataque), tanto o atacante como o que defende se podem deslocar livremente, o primeiro procurando a melhor ocasião para atacar, tentando pressentir uma falta de concentração do “adversário” ou colocar-se numa posição mais vantajosa, enquanto o que defende faz por manter a distância correcta, que lhe permita defender em segurança.

O jyû-ippon kumite pode tomar várias formas, seja mudando o nível ou o tipo de ataque ou, em graduações mais avançadas, com ataques não convencionados.

Irimi ou Kawashi


A palavra irimi é composta por dois ideogramas, o primeiro dos quais (iri) significa “entrar” e o segundo (mi) significa “corpo”. Poderá, por isso, traduzir-se por “entrar no corpo (no ataque do adversário)”, ou tomar o espaço que o “adversário” queria ocupar, antecipando-se.

Nesta forma de kumite, Uke-te não faz parada, e tenta antecipar o ataque avançando uma fracção de segundo antes de Tsuki-te começar o seu movimento. Segundo a explicação dada por Mestre Murakami, entre a decisão do ataque, ou seja, entre a ordem cerebral dada aos músculos e o começo do movimento de ataque, existe um período de tempo (uma fracção de segundo), que Uke-te aproveita para avançar colocando-se o mais possível atrás do atacante. O movimento de Uke-te, embora parecendo uma esquiva, é, ou deve-se procurar que seja, um ataque antecipado e como tal deve ser sentido. Aliás, o movimento de Uke-te pode tomar mesmo a forma de um ataque (desta vez controlado). O corpo avança em choque frontal com Tsuki-te, rodando no último momento, de forma a colocar-se o mais possível na sua rectaguarda.

O estado de espírito necessário à prática desta forma de kumite é bastante difícil de alcançar, pois qualquer tipo de pensamento é impeditivo do sucesso da técnica, necessitando Uke-te de estar em completa descontracção física e mental, para conseguir ser receptivo à intenção do atacante. Há duas expressões japonesas, que exemplificam o estado mental adequado à prática do irimi, e, por conseguinte, do combate em geral.“Mizu no kokoro” (uma mente como a água). A nossa mente deve ser como a superfície de um lago de águas calmas, reflectindo tudo o que o cerca. Assim, qualquer movimento é imediatamente percebido, em tempo real. Se a brisa enrugar a superfície das águas, a reflexão dos objectos deixa de existir. Também a mente, se for perturbada por pensamentos, se não estiver límpida, não se aperceberá dos movimentos ou intenções dos “adversários”.

“Tsuki no kokoro “ (uma mente como a lua). O luar ilumina todas as coisas por igual. Se for toldado por nuvens, alguns objectos iluminados tornam-se menos perceptíveis. Do mesmo modo, a mente tem que abranger e estar receptiva a tudo o que nos cerca, sem se fixar num dado pormenor. Se nos fixarmos na perna do “adversário”, temendo um pontapé, todo o resto do corpo dele ficará “na penumbra”, ou seja, não nos aperceberemos de outro tipo de ataque que ele possa efectuar, e muito menos das suas intenções.

Midare

Midare, cujo ideograma também se lê Ran (título de um filme de Akira Kurosawa) significa “desordem, confusão, desorganização”, e é o nome dado a esta forma de kumite, que é normalmente praticada a dois, mas em que o número de atacantes pode ser superior. Trata-se de fazer irimi repetidas vezes a um ou vários “adversários” que atacam Uke-te com um ataque que pode ser predeterminado ou livre. As suas características de kumite não formal aproximam-no do randori do Aikidô e do Jûdô, em que os ataques são indiscriminados. Aliás, o “ran” de randori escreve-se com o mesmo ideograma de midare e, no Aikidô, a designação de randori veio substituir a de midaregeiko (treino de midare). É possível que o Mestre Egami (ou o Mestre Murakami) tenha ido buscar este nome ao Aikidô ou ao Kendô.[1]

Aqui também, como aliás em todas as formas de kumite, é essencial o sentido de antecipação, de timing e de distância.

Em combate, não basta a concentração mental. Sem “concentração” do corpo, ou seja, se o corpo não estiver pronto a actuar, podemos sentir a ocasião de atacar ou defender, mas não agimos concomitantemente. Também do kendô nos vem uma expressão que define bem a as condições para uma eficaz actuação em combate: “Ki ken tai no itchi”, cujo significado (“ki”=mente, vontade, atenção, “ken”=sabre, e “tai”=corpo, em união= itchi) se pode traduzir, transmutando para o Karate, por “vontade, espírito de decisão, concentrado numa técnica correcta e com o corpo num estado de preparação óptimo, agindo em uníssono, em harmonia.

[1] O
Mestre Murakami praticou estas duas artes no começo da sua carreira.
Nihon Karate Do Shoto Kai
(Membro oficial)


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Tetsuji Murakami
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